a menos que esteja deslumbrada, como noventa por cento dos que aqui vêm. e com alguma razão, diga-se. afinal em uma cidade pequena você é reconhecido, e nem sempre é pelos motivos que seria justos ou verdadeiros. na cidade grande a anonimidade chega a ser um alívio, e a solidão é enfim uma opção. às vezes não. na cidade pequena não há a possibilidade de sentar-se em grandes praças públicas observando o movimento de pessoas que não se repetem. não há liberdade de fazer muita coisas como dizer palavrões ou brincar com desconhecidos. E tem aquele ar de descoberta juvenil tão gostoso que a gente sente quando entra na selva de concreto pela primeira vez. a gente acha que é pela cidade a sensação mas na verdade é pela gente. temos a mesma sensação ao ver um bicho diferente no meio da mata perto do rio quando somos moleques arteiros...
não procurei sondar as reais intenções de minha amiga primeiro porque em parte eu ja meio que sabia e segundo porque era um msn. nestas horas nada melhor que um papo olho a olho. então eu disse a ela: que bom que vai vir para cá.. assim quem sabe podes ajudar também a tornar essa comunidade um lugar melhor com tua presença. ela deve ter feito cara de quem não entendeu, e eu não soube explicar. disse não sei explicar. ficou por isso. mas eu sei explicar agora, e me dedicarei a isso.
muitas pessoa têm vindo do interior de uns tempos para cá. eu sou um destes, e o rafael - amigo que faz física e fez kung fu e tem uma leitura de mundo que une taoísmo e física quântica sem parecer que leu isso em algum lugar - também. Alguns de nossos amigos em comum não vieram do interior, nasceram aqui, mas mesmo assim têm uma consciência do que significa natureza, ou melhor, já começam a dar um significado novo e contemporâneo à natureza. Significado esse que esta muito ligado aos nossos ancestrais que labutam na terra, e que tem uma ligação incomum - nos dias de hoje/nas cidades grandes - com a natureza e com a realidade. eles olham o céu e sabem que tempo vai vir. eles olham o sol e sabem que equinócio estamos - mesmo sem saber, claro o que é esse tal de equinócio. Rafael, eu, suellen, minha amiga, somos os filhos do meio da história. Não temos essa ligação senão latente dentro de nós - como todos afinal, mas também não estamos iludidos pela babilônia com suas trances tecnológicas e suas ilusões comodistas. Temos uma tendência inegável em trazer nosso lar para nosso acampamento, e podemos, sem sombra de dúvida, tranformar o interior da capital a partir de nós mesmos. Já fazemos isso, todos os dias. Seja sem comer carne, seja usando bicicletas. Passamos filtro solar, claro, mas não deixamos de caminhar a pé sem saber onde vai dar. Descobrimos que o caminho mais demorado é aquele que se faz correndo. Não temos gana de mudar ninguém além de nós mesmos. Somos a pintura que se refaz todos os dias. Desde cedo, junto do sol. Adoramos a noite, as estrelas e a lua, mas sabemos de qual traiçoeiro é a entrega a esta irmã ingrata. Deixemos para ocasiões especiais e inevitáveis. Gostamos de leite, mas nos nutrimos com água, e gostamos de chocolate, mas só se for para nadar; unindo o agradável ao agradável. Deixamos o que é útil para aqueles que são úteis.
